Você já zelou pela vida de uma mulher hoje?


São 4h15 e eu não consigo parar de chorar compulsivamente, no quarto escuro e gelado. O que me dói é que isso é real e não é uma exclusividade minha. Em todo o mundo e na rua aqui de cima essa história pode estar se se repetindo agora, de forma muito pior e sem metáforas que abrandem.

E tudo acontece em cenários familiares. Na avenida movimentada, cheia de árvores e céu azul, eu e mais três mulheres caímos em uma armadilha, dessas que pegam passarinhos distraídos com o ar e suas possibilidades. Em poucos segundos chega um homem, desses distintos que deveriam nos livrar do cativeiro. Mas não, ele é quem fez a gaiola, ele é quem não quer nos ver cantar, mas murchar a cada novo dia. E a noite as coisas pioram, ele se transforma em um monstro, daqueles que ocupam todos os espaços, do cômodo pequeno e dos nossos corpos.  É desesperador ver-se fundida a um monstro, que não expande, que só te diminui e flui em seu sangue como veneno, matando pouco a pouco qualquer esperança de liberdade.

Em um ato de desespero e tragédia, uma das mulheres tenta fugir da gaiola em que estamos presas, não sou eu, e isso me envergonha duplamente, pela falta de força e coragem para desejar ir além. Ela não consegue fazer isso sem que o monstro, apoiado em homens como você, caro leitor, a peguem em flagrante, impedindo seu salto de vida. E  por ainda ter asas, ela tem seus dois braços quebrados, em uma sessão de tortura não só contra o seu corpo, mas também contra todas nós, mulheres. E nós vimos, em desespero, onde um sonho pode te levar.

Como toda pessoa transformada em objeto, em pouco tempo somos levadas para um outro cativeiro, um pequeno apartamento, onde não só o monstro inicial, como outros secundários, caminham em nós. Nesse espaço o  monstro é só a sombra de ódio e escravidão nos olhos desses novos homens de velhos vícios. Não há janelas, o clima é quente e sempre tenso quando passos se aproximam da porta.

Cansada de esperar que os passos levem a outros caminhos, decido tentar abrir a porta, mesmo tendo certeza que ela está trancada e que só quem circula do outro lado é detentor da chave. Ela abre. Não há ninguém lá fora, é tudo branco, é tudo claro demais para olhos acostumados com a penumbra. Corro, assim como as mulheres que me acompanham, corro sem saber para onde. Saio em uma rua comum, tão comum quanto a que fui presa e isso me assusta. Nada mais é familiar, a não ser o medo.

Tentamos correr por uma rua, mas descobrimos que é sem saída, tentamos voltar para a avenida, mas avistamos o monstro, em sua versão representante da moral e  dos bons costumes. Sem chance, pulamos um muro a procura de ajuda. Caímos em uma casa com jardim, muros de tijolinho, sala de estar, jantar, cozinha. Nós queremos alguém que nos salve, que chame a polícia e denuncie essa invasão constante de nossas terras. Mas ao chegar no fim da casa, avistamos um dos homens secundários, grileiro de nossos corpos.

Corremos em direção ao portão de entrada, tentamos, em vão, continuar andando pela avenida sem sermos percebidas, porque o outro é uma ameaça eminente ao nosso salto quase suicida. Não demora muito o monstro, outros homens e até uma mulher nos rendem, nos jogam no chão, com o rosto rente a terra, com um desejo imenso que ela nos consuma. O grupo nos cerca de tal forma que poucas pessoas conseguem nos ver. Três lixeiros, que estão a trabalho, olham horrorizados a cena. Eu peço ajuda, como em uma última tentativa de me redimir desse destino, eles têm nos olhos parte do meu medo e se calam.

Choro, desesperadamente. E penso nas mulheres que compartilham do meu drama. Choro ao tentar me consolar lembrando que em outros países, depois de anos de escravidão, há mulheres que se convertem em Capitão do Mato. Há mulheres que ,com seus atos, tornam-se o monstro. É como se quisesse ver no meu futuro algo bom. Eu não seria um deles, por mais que se fundissem a mim. Eu  não queria mais ser nada, nem ninguém e tentava me estrangular com uma corda achada no chão. Era em vão, eu não tinha mais direito a minha morte.

Acordo no quarto escuro e gelado, com a janela um pouco aberta e, em um ato instintivo, a escancaro. A noite está fria, silenciosa,  eu choro para o vento. Na cama, um homem dorme. Eu o escolhi e não quero que me veja agora. Os sentimentos de opressão e impotência ainda doem e apavoram.  Quero, ao mesmo tempo, salvar todas as mulheres e preservar a minha própria menina dos olhos. Tenho medo de abrir a porta do quarto e encontrar o monstro. Tenho vergonha do medo quase infantil. Lembro da minha mãe me salvando a cada madrugada com suas orações.

Decido pedir ajuda. Desabo de joelhos na beira da cama, o choro corre como um rio no meu rosto. As lágrimas intercendem pelas palavras que, aos poucos, eu consigo soltar. Falo com Deus, com a minha alma feminina, com o subjetivo que me mantêm viva. Me assumo frágil aos pés do único que pode, de fato, me salvar e ajudar a ir além. Interecedo pelas mulheres cativas, pelos sonhos femininos destruídos, pelas tragédias e injustiças que nos dilaceram todos os dias. Ali, de joelhos no chão e medos escancarados, me sinto aliviada, ligada inconscientemente às dores da escravidão que ainda nos assola, mas livre espiritualmente.
Amanhece.

Obs: o texto é baseado em um pesadelo (que eu tive em uma madrugada de verão), apesar disso, como eu escrevi no início, dói por ser real, por acontecer milhares de vezes ao redor do mundo e aqui, no Brasil. Escrevi para me acalmar, para me redimir um pouco por não fazer nada para mudar essa tragédia.

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Talita Ribeiro

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